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Testemunho:
Drª Fátima Vaz



“You can live with unhappiness, but bitterness will kill you.” Richard Osman in "We solve murders"

Ao longo do meu percurso como Oncologista Médica, várias vezes me senti exausta com a exigência do trabalho face ás necessidades pessoais e da minha familia. Na sociedade em que vivemos, é fácil levarem-nos a pensar que temos de ser super-mulheres, que para provar que somos capazes, temos de ser excelentes no trabalho e ter uma vida familiar e doméstica cor de rosa. Esse engodo é perigoso, sinto que as mulheres precisam de se libertar dele.

Ao longo do meu percurso no Instituto Português de Oncologia de Lisboa, tive o privilégio de acompanhar muitas mulheres que, mesmo em contextos de grande adversidade, revelavam uma força que transcendia a própria doença. Muito aprendi com elas e com uma técnica de serviço social que explicitamente alertava as doentes que queriam (imagine-se!) tentar continuar a fazer quase tudo o que faziam antes da doença. Ela promovia todos os apoios sociais possíveis, mas lembrava a importância da rede de apoio, que pode ser familia, amigos, vizinhos. A norma é: aceite ajuda antes da exaustão, para prevenir a exaustão. Esta norma aplica-se só na doença grave? Considero que não.

Tem sido crucial para mim, com maior ou menor regularidade, manter amigos e atividades fora da profissão. Mesmo que nem sempre compreendam bem como o que fazemos pode ser tão envolvente, ganhamos outras visões do mundo, o que, no meu caso, contribuiu para realinhar as minhas perspetivas em relação à profissão e à vida pessoal. Esta reflexão pode parecer banal, mas como sabemos o tempo dispendido no hospital, em reuniões cientificas, deslocações a congressos e reuniões de projetos faz com que, inevitavelmente, criemos mais proximidade com outros profissionais de saúde. Sobre isso, fico feliz com a tendencia crescente de evitar marcar reuniões ao fim de semana, o que contribui para alinhar mais tempo para a vida pessoal.

Além do tão desejado equilíbrio pessoal e profissional, penso que todos devemos contribuir para um ambiente de trabalho saudável. Passamos muitas horas no local de trabalho, o que fazemos é exigente e, por vezes, muito duro emocionalmente. Os nossos serviços de recursos humanos e de saúde ocupacional muito têm de evoluir no apoio emocional ás equipas. Até lá, somos nós que devemos promover um ambiente saudável entre todos, porque a discussão e partilha em equipa promove também, o bem estar individual no trabalho.

Neste espaço da Sociedade Portuguesa de Oncologia, expresso a minha gratidão a todas as mulheres com as quais me cruzei, colegas mais velhas que muito me ensinaram, inúmeras outras profissionais de saúde que com uma palavra me deram alento e mostraram solidariedade em momentos muito difíceis. Estou muito grata também ás doentes que, com a sua coragem silenciosa e a sua força extraordinária, me têm ensinado o verdadeiro significado de resiliência.