Testemunho:
Drª Ana Raimundo
Um testemunho enquanto Mulher e Profissional de Saúde na área da Oncologia
Todas as pessoas e todas as mulheres são diferentes, pelo que o meu testemunho poderá fazer pensar algumas / alguns, pelas reflexões aqui suscitadas. Enquanto Mulher, pretendo mostrar algumas experiências e reflexões que fui tendo ao longo da vida, e que poderão servir de ajuda a outros, sobretudo aos mais novos. Desde o 25 de Abril de 1974 que a vida e a liberdade das mulheres mudaram muito…, mas permaneceram muitas heranças antigas. O coletivo masculino tem interiorizado (mesmo os mais novos) um estereótipo antigo e cristalizado. A ideia da mulher ligada a uma atitude mais passiva, ao cuidado dos outros, da casa, à resistência discreta. Esta herança não desparece de um dia para o outro, permanecendo de forma discreta (porque manifestá-lo seria politicamente incorreto) nas frases incompletas, nos hábitos, nas expetativas e nas oportunidades. Em Portugal, ainda hoje, não é fácil ser Mulher. Daqui resulta a minha primeira reflexão: À medida que fui envelhecendo é que consegui entender de forma mais marcada este peso que existe nos ombros da Mulher. Se por um lado, há a possibilidade de prosseguir estudos altamente diferenciados, escolher a profissão e ser economicamente independente, viajar e fazer as suas próprias escolhas, por outro lado, mantém-se a pressão silenciosa de “responder a tudo e a todos”: trabalhar, cuidar, estar presente para a família, ser forte, e ao mesmo tempo, ser delicada e feminina. Este equilíbrio não é fácil e é altamente desgastante. A minha geração representou o orgulho de ser mulher e independente, herdando das suas mães esta capacidade de trabalho e resistência passiva. Agora vem a minha segunda reflexão: as novas gerações de mulheres, mais cultas e diferenciadas, que cresceram já num país transformado, em que estudar, ter profissão e ter autonomia são possibilidades quase naturais, olham para as suas mães (sobrecarregadas de tarefas), e não querem essa vida altamente desgastante. Para onde vamos (in)evoluir? Sinceramente, não sei. Deixo esta reflexão.
Na área da Saúde em Portugal, e em particular na Oncologia, há uma grande representatividade de mulheres envolvidas, mas grande sub-representação em lugares de topo. Há apenas 38% de mulheres em lugares de topo na área da saúde globalmente, embora cerca de 75% do total de força de trabalho sejam mulheres. A representatividade de diferentes grupos na liderança, poderá contribuir para uma melhoria nas tomadas de decisão e benefício para todos, mas a contribuição feminina está sub-representada. São várias as barreiras existentes para a liderança feminina: normas e valores de cultura organizacional, estereótipos de género, desafios na conciliação entre vida profissional e familiar, falta de mentoras (es), exclusão de redes informais. É necessário perceber o que impede a progressão na carreira das mulheres, para implementação de medidas concretas que possam ajudar aquelas que têm essa vontade. Foi realizado um estudo de opinião à nova geração da área da saúde, com o objetivo de compreender como percecionam o tema da igualdade de género e liderança em geral, no sector da saúde. 61% dos profissionais de saúde que responderam foram mulheres e 39% foram homens, com idade média de 36 anos. 20% dos homens e 11% de mulheres exerciam cargos de chefia, respetivamente. 41% dos homens considerou que há igualdade de oportunidades entre géneros, contra 14% das mulheres. No entanto, apenas 28% das mulheres gostaria de exercer um cargo de liderança. Em relação à discriminação de género no local de trabalho, 35% das mulheres sentiram-no e 15% dos homens também. Na pergunta se já presenciaram exemplos de discriminação de género no local de trabalho, 41% das mulheres e 24% dos homens responderam que sim. Podemos concluir, que muito há ainda a fazer para a igualdade de género em relação às mulheres, mas também em relação aos homens. Esta oportunidade de escrever este testemunho, com dados reais, abre um espaço à discussão para que juntos, possamos implementar medidas para melhorar a vida de todos, com justiça e igualdade de oportunidades independentemente do género, raça ou credo.
Todas as pessoas e todas as mulheres são diferentes, pelo que o meu testemunho poderá fazer pensar algumas / alguns, pelas reflexões aqui suscitadas. Enquanto Mulher, pretendo mostrar algumas experiências e reflexões que fui tendo ao longo da vida, e que poderão servir de ajuda a outros, sobretudo aos mais novos. Desde o 25 de Abril de 1974 que a vida e a liberdade das mulheres mudaram muito…, mas permaneceram muitas heranças antigas. O coletivo masculino tem interiorizado (mesmo os mais novos) um estereótipo antigo e cristalizado. A ideia da mulher ligada a uma atitude mais passiva, ao cuidado dos outros, da casa, à resistência discreta. Esta herança não desparece de um dia para o outro, permanecendo de forma discreta (porque manifestá-lo seria politicamente incorreto) nas frases incompletas, nos hábitos, nas expetativas e nas oportunidades. Em Portugal, ainda hoje, não é fácil ser Mulher. Daqui resulta a minha primeira reflexão: À medida que fui envelhecendo é que consegui entender de forma mais marcada este peso que existe nos ombros da Mulher. Se por um lado, há a possibilidade de prosseguir estudos altamente diferenciados, escolher a profissão e ser economicamente independente, viajar e fazer as suas próprias escolhas, por outro lado, mantém-se a pressão silenciosa de “responder a tudo e a todos”: trabalhar, cuidar, estar presente para a família, ser forte, e ao mesmo tempo, ser delicada e feminina. Este equilíbrio não é fácil e é altamente desgastante. A minha geração representou o orgulho de ser mulher e independente, herdando das suas mães esta capacidade de trabalho e resistência passiva. Agora vem a minha segunda reflexão: as novas gerações de mulheres, mais cultas e diferenciadas, que cresceram já num país transformado, em que estudar, ter profissão e ter autonomia são possibilidades quase naturais, olham para as suas mães (sobrecarregadas de tarefas), e não querem essa vida altamente desgastante. Para onde vamos (in)evoluir? Sinceramente, não sei. Deixo esta reflexão.
Na área da Saúde em Portugal, e em particular na Oncologia, há uma grande representatividade de mulheres envolvidas, mas grande sub-representação em lugares de topo. Há apenas 38% de mulheres em lugares de topo na área da saúde globalmente, embora cerca de 75% do total de força de trabalho sejam mulheres. A representatividade de diferentes grupos na liderança, poderá contribuir para uma melhoria nas tomadas de decisão e benefício para todos, mas a contribuição feminina está sub-representada. São várias as barreiras existentes para a liderança feminina: normas e valores de cultura organizacional, estereótipos de género, desafios na conciliação entre vida profissional e familiar, falta de mentoras (es), exclusão de redes informais. É necessário perceber o que impede a progressão na carreira das mulheres, para implementação de medidas concretas que possam ajudar aquelas que têm essa vontade. Foi realizado um estudo de opinião à nova geração da área da saúde, com o objetivo de compreender como percecionam o tema da igualdade de género e liderança em geral, no sector da saúde. 61% dos profissionais de saúde que responderam foram mulheres e 39% foram homens, com idade média de 36 anos. 20% dos homens e 11% de mulheres exerciam cargos de chefia, respetivamente. 41% dos homens considerou que há igualdade de oportunidades entre géneros, contra 14% das mulheres. No entanto, apenas 28% das mulheres gostaria de exercer um cargo de liderança. Em relação à discriminação de género no local de trabalho, 35% das mulheres sentiram-no e 15% dos homens também. Na pergunta se já presenciaram exemplos de discriminação de género no local de trabalho, 41% das mulheres e 24% dos homens responderam que sim. Podemos concluir, que muito há ainda a fazer para a igualdade de género em relação às mulheres, mas também em relação aos homens. Esta oportunidade de escrever este testemunho, com dados reais, abre um espaço à discussão para que juntos, possamos implementar medidas para melhorar a vida de todos, com justiça e igualdade de oportunidades independentemente do género, raça ou credo.