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Cuidar de quem cuida: um tributo aos pais
DIA DO PAI | 19 de março de 2026



“Somos quatro irmãos: um engenheiro dedicado à farmacêutica e especificamente aos ensaios clínicos em Oncologia, e três médicos. Em nenhuma altura das nossas vidas os nossos pais (sendo a nossa mãe também médica pediatra) influenciaram as nossas escolhas profissionais, mas antes apoiaram. E mais, inspiraram. Torna-se difícil crescer numa casa em que, mesmo crianças, nos vamos apercebendo do impacto que os nossos pais têm na vida dos outros, na diferença que podem fazer também para outras famílias, e não almejar a ser como eles. Nenhum de nós é oncologista porque, admiramos o nosso pai, mas somos também razoáveis e conscientes do pesado legado que teríamos de seguir… Discreto e de palavras concisas, passa-se por um qualquer outro clínico, acessível e sempre disponível, fugindo ao mediatismo e ignorando o reconhecimento inquestionável que tem na sua área. Marrão desde o berço (para mal dos nossos pecados…), mais que estudar, o que lhe dá mesmo prazer é ensinar e contribuir para a formação dos mais novos, quer a nível pré-graduado, quer na dedicação que tem pelos seus internos. Como oncologista de referência em certas patologias, já por várias vezes ouvimos “o teu pai foi médico da minha mãe”. E gelamos face ao tempo verbal aplicado e aguardamos silenciosos por mais desenvolvimentos. Mas a verdade é que, independentemente do desfecho, o que vemos de forma consistente é a marca positiva que deixou na vida dessas pessoas. Apesar de personagem principal numa fase difícil, de angústia e desespero, não pára de nos impressionar que a memória que deixa é de tranquilidade e confiança. Apesar de estar constantemente a correr entre o hospital, as aulas da faculdade, os cursos da Curia, os encontros da Primavera (onde aprecia especialmente a cozinha), e as reuniões da ASCO, não descura nunca aquilo que é a sua vocação: ouvir e fazer-se sentir ouvido os que dele mais precisam.

E, ainda que um workaholic incomparável, consegue mesmo assim igualar as suas competências como pai. Ouvimos também outra vez: “engraçado como o vosso pai trabalha tanto, mas está sempre presente”. E está mesmo. Presente para o jantar aborrecido de domingo, disponível para esclarecimentos de como actuar em caso de doença leve (e, recordo, somos todos médicos, mas parece que não nos conseguimos desprender desta validação), contacto de emergência em qualquer problema de mecânica ou outro (ainda que, quanto a isso, não saiba fazer nada), e avô dedicado e idolatrado.

Temos muito orgulho. Mas, sobretudo, temos muita sorte.”

Filipe, Rita, Miguel e Inês